
Carta para 2044
Com o nascimento da minha filha, me peguei imaginando o mundo em que ela vai viver aos 18 anos, em 2044. Uma carta com as previsões que eu realmente acredito — e o que aposto que vai continuar importando por trás delas.
Você está dormindo no meu colo enquanto eu escrevo isso. Tem poucos meses de vida, respira rápido, e ainda não faz ideia de que existe um mundo lá fora além do meu peito e da voz da sua mãe.
Estou datando esta carta para 2044. Você vai ter 18 anos quando ler — a idade em que eu jurava já ter entendido o mundo, e olha como eu estava enganado. Escrevo agora, em 2026, porque quero que um dia você saiba exatamente o que seu pai imaginava sobre o mundo que você ia encontrar, quando esse mundo ainda era só uma aposta.
E não é adivinhação solta. É o que eu genuinamente acredito, olhando para o que já está montado hoje e puxando as linhas para frente. Vou errar em muita coisa — o tempo que cada uma vai levar, os detalhes, talvez o rumo. Algumas dessas linhas você vai ler achando graça de como eu era ingênuo, e tudo bem. O que eu não quero errar é no que fica embaixo delas.
Eu vi muita coisa mudar
Eu nasci em 1988. Deixa eu te contar o mundo em que eu cresci, porque você não vai acreditar.
Eu vi a internet chegar. A de verdade, aquela que ocupava a linha do telefone e fazia um barulho de robô engasgado para conectar. Eu vi televisão de tubo, aquele monstro pesado de vidro curvo que esquentava a sala. Tive meu primeiro smartphone já adulto — um Nexus, do Google — e lembro da sensação de segurar o mundo inteiro na palma da mão pela primeira vez.
Eu vivi uma pandemia que parou o planeta e mandou o mundo inteiro para dentro de casa. E, pouco antes de a gente decidir te ter, vi uma coisa chamada ChatGPT aparecer e conversar comigo como gente. Eu, que trabalho com tecnologia a vida toda, fiquei sem chão. Parecia mágica. Parecia cedo demais.
Foi muita coisa para uma vida só. E aqui está o que me tira o sono e me acende ao mesmo tempo: mesmo tendo visto tudo isso, eu tenho quase certeza de que o mundo vai mudar mais na sua vida do que mudou na minha — e mais rápido. A mudança não anda em linha reta, ela acelera. A internet levou décadas para chegar em todo mundo. A IA vinha sendo construída havia anos nos bastidores, mas invadiu a vida de todo mundo em questão de meses.
O mundo que você vai encontrar
Vamos ao exercício. Fecha os olhos e imagina o Brasil, o mundo, o seu 2044.
Ninguém que você conhece dirige. Ou quase ninguém. Pouco antes de você nascer, em um único ano, mais de 37 mil pessoas morreram no trânsito brasileiro — o pior número em quase uma década. No mundo, foi mais de um milhão de pessoas, todo ano, ano após ano. A gente tratava isso como paisagem, como se fosse o preço natural de se locomover. Enquanto eu escrevo, os carros autônomos da Waymo já fazem meio milhão de corridas por semana em várias cidades, sem motorista, e caminham para o dobro disso ainda este ano. Quando você ler, guiar na mão vai ser coisa de hobby, feita no fim de semana por quem gosta. E você vai olhar para trás com o mesmo espanto que eu sinto hoje ao lembrar que houve um tempo em que os cirurgiões operavam sem lavar as mãos: como assim as pessoas guiavam toneladas de metal a 100 por hora, cansadas e distraídas — e a gente aceitava dezenas de milhares de mortos por ano como se fosse normal? Vai parecer selvagem. Porque era.
O trabalho vai ser outra coisa. Eu já escrevi bastante sobre isso: a IA parou de só sugerir e começou a fazer — abrir sistemas, executar tarefas inteiras. Hoje ela ainda tropeça, ainda precisa de gente por perto para não capotar; a distância entre a demonstração que impressiona e o que aguenta a vida real continua grande. Mas a direção é clara. No seu mundo, ter uma equipe de agentes digitais cuidando de tarefas vai ser tão banal quanto ter e-mail foi para mim. E o trabalho físico repetitivo segue o mesmo caminho: hoje já se veem as primeiras fábricas de robôs humanoides saindo do papel, com promessas — ainda por provar — de fabricá-los aos milhões. Nada disso significa um mundo sem trabalho. Significa um mundo em que o valor migra de executar para decidir o que vale a pena ser feito. Mas essa migração não vai ser justa nem automática: muita gente vai ser deixada para trás no caminho, e uma parte do seu trabalho, filha, vai ser não fingir que essas pessoas não existem.
A energia vai ser quase de graça. Isso parece detalhe técnico, mas talvez seja a mudança mais profunda de todas. Enquanto escrevo, a energia solar acabou de se tornar a fonte de eletricidade mais barata da história da humanidade — caiu 90% de preço em quinze anos, e as baterias caíram quase o mesmo. Junta energia barata e abundante com inteligência barata e abundante, e você tem uma combinação que muda a natureza da economia. Dessalinizar água, produzir, computar, transportar: tudo que hoje é caro porque consome energia e trabalho tende a despencar de preço. Só que “barato” não é “sem custo” — quanto mais fácil fica gastar energia, mais o mundo inventa maneiras de gastá-la, e os próprios cérebros de IA já disputam eletricidade com cidades inteiras. O gargalo do mundo deixa de ser produzir coisas e passa a ser decidir quais coisas merecem existir — e quanto do planeta a gente aceita queimar nelas.
A caixa preta na sua mão vai sumir. Hoje eu passo horas por dia olhando para um retângulo de vidro, e não me orgulho disso. Você provavelmente não vai ter esse retângulo. As grandes empresas já apostam que, na sua adolescência, um par de óculos comum vai fazer o que o celular faz hoje — a informação vira uma camada transparente sobre o mundo real, em vez de um buraco para onde a gente foge do mundo real. Talvez isso te devolva o olhar para cima. Ou talvez só torne a distração mais invisível ainda. Sinceramente, eu não sei, e essa é uma das coisas que mais me preocupam.
A medicina vai jogar outro jogo. Neste momento, remédios que começaram para diabetes já mostram sinais de desacelerar o próprio envelhecimento biológico, e cientistas sérios discutem se a sua geração pode ser a primeira a empurrar a expectativa de vida bem além dos cem — pelo menos para quem puder pagar por isso. Já existem pessoas com paralisia controlando computadores só com o pensamento, por meio de um chip no cérebro. Quando você ler isto, a fronteira entre o corpo e a máquina vai estar bem mais borrada do que está hoje. Você pode viver muito mais do que eu — e ter, por causa disso, não uma carreira, mas cinco ou seis vidas profissionais diferentes ao longo do caminho.
Repara na conexão entre todas essas linhas, porque é aqui que mora o não óbvio: quanto mais barata fica a resposta, mais cara fica a pergunta. Quanto mais realista fica a imitação, mais valiosa fica a autenticidade. Quanto mais o mundo automatiza o fazer, mais tudo passa a depender de decidir o que fazer. É esse fio que me leva à parte que mais importa nesta carta.
O que eu aposto que não vai mudar
Adivinhar cenário é a parte fácil, e a que envelhece mais rápido. Agora vem a parte em que eu aposto de verdade — no que eu acredito que vai continuar valendo ouro num mundo em que quase tudo que descrevi acima virou commodity. Não são regras. São as coisas que eu queria ter entendido mais cedo, e que nenhuma máquina vai aprender no seu lugar.
A primeira é saber qual pergunta fazer. Num mundo onde qualquer resposta é instantânea, gratuita e infinita, o valor todo migra para a pergunta. Definir o problema certo, enxergar o que ninguém enxergou, perceber que a pergunta que todo mundo está fazendo é a errada — isso nenhuma máquina faz por você, porque depende de querer alguma coisa. A habilidade mais rara do seu tempo não vai ser encontrar respostas; vai ser saber o que vale a pena perguntar.
Da pergunta nasce a segunda: julgamento e gosto. Quando produzir qualquer coisa fica trivial, decidir o que é bom fica caríssimo. Escolher, entre mil opções igualmente possíveis, qual delas presta — isso é gosto, é critério, é julgamento formado. E julgamento não se baixa de lugar nenhum: se constrói vivendo, errando, prestando atenção. Cultiva o seu. Ele vai ser o seu diferencial quando fazer não for mais diferencial de ninguém.
Vai precisar desse julgamento especialmente para uma coisa: confiar em um mundo de imitações. Na sua época, texto, voz e vídeo indistinguíveis do real vão ser abundantes e baratos. Qualquer rosto pode dizer qualquer coisa; qualquer voz pode ser forjada. Nesse oceano de imitação perfeita, a coisa mais escassa e mais valiosa vira saber em quem confiar. Reputação, integridade, ter palavra — o que os antigos chamavam de caráter — deixam de ser virtude moral e viram, também, vantagem prática. As pessoas vão te procurar não pelo que você sabe, que estará ao alcance de todos, mas por poderem confiar em você.
E, no meio de tanta simulação, não perca o que é real: a presença de verdade. Quanto mais o mundo virar tela, simulação e companhia artificial, mais raro e mais precioso vai ser o simples ato de estar de fato com alguém. Olhar no olho, ouvir sem pressa, segurar a mão. A tecnologia vai te oferecer mil substitutos convincentes para a presença humana. Não aceite todos. O que cura, o que sustenta, o que dá sentido, continua sendo gente — e isso, eu aposto, não muda em 2044 nem em 2144.
E se tudo mudar depressa demais, vem a última aposta, a que sustenta todas as outras: a coragem de começar do zero. Se você vai viver várias vidas profissionais, o que te sustenta não é dominar uma coisa. É a coragem de recomeçar — de questionar como as coisas são feitas, de pensar a partir dos primeiros princípios em vez de copiar o que já existe, de discordar quando é mais fácil concordar. Eu nunca gostei de gente que só diz “sim senhor”, e espero que você também não seja assim, nem comigo. Num mundo que muda depressa, adaptar-se de novo e de novo vale mais do que qualquer certeza que você tenha aos 18.
Antes de te deixar ir
Termino esta carta com dois sentimentos brigando dentro do peito.
Um é animação. Você vai ver coisas que eu mal consigo imaginar, resolver problemas que me pareceram impossíveis, viver mais tempo e mais livre do trabalho braçal do que qualquer geração antes da sua. Que privilégio começar a vida agora.
O outro é preocupação. Todo esse poder vem com sombras — a distração desenhada para te capturar, a imitação que confunde o verdadeiro, a tentação de terceirizar para a máquina o pensar, o sentir, o decidir. Eu vi o suficiente para saber que nenhuma tecnologia chega só com o lado bom, e que quem te disser que sabe como tudo isso termina está te vendendo alguma coisa.
Mas se tem uma coisa da qual eu não abro mão, é esta: eu não sei que mundo vai te esperar, mas, como seu pai, vou fazer o meu melhor para te preparar para qualquer mundo que venha. Não te entregando respostas prontas, que vão estar velhas antes de você crescer, e sim te ajudando a construir o que não envelhece — o critério, a coragem, o caráter e a capacidade de amar de verdade.
E se você chegar aos 18 e nada disto combinar com quem você é — se escolher um caminho que eu nem sonhei, ou provar que seu pai estava errado do começo ao fim — está tudo bem também. Eu não escrevi isto para você virar a minha aposta. Escrevi para você saber que teve alguém, desde o primeiro dia, torcendo para você virar você.
Com amor, seu pai — em 2026, escrevendo para você em 2044.
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