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· 9 min de leitura
A IA já está trabalhando. A pergunta é se você está trabalhando com ela.

A IA já está trabalhando. A pergunta é se você está trabalhando com ela.

Dados mostram que a IA já transformou o trabalho de quem a adotou. Mas a maioria das empresas ainda demite por antecipação, não por resultado.

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Não passo mais um dia sem usar IA. Claude, ChatGPT, tanto faz. Tenho uma ideia, quero validar um conceito, preciso estruturar um argumento, e o primeiro impulso é abrir a ferramenta. Não foi planejado. Virou parte do ritmo.

Isso não me incomodou. Mas me fez refletir. Porque a dinâmica muda. E muda muito rápido. Em setembro de 2025, a Anthropic lançou o Claude 4.5 Sonnet. Menos de cinco meses depois, em fevereiro de 2026, veio o Claude Opus 4.6 com uma janela de contexto de 1 milhão de tokens, cinco vezes maior que a versão anterior. Cinco vezes mais contexto significa cinco vezes mais capacidade de compreender, analisar e conectar informações numa única conversa. E isso é uma mudança que se mede em meses, não em anos.

Quando a ferramenta que você usa no dia a dia evolui nessa velocidade, não é só o seu trabalho que muda. É a sua relação com o trabalho. A forma como você pensa, o que considera viável, o que parece “demais” para fazer sozinho. Tudo se recalibra em tempo real.

Meses atrás, escrevi aqui que a direção era clara. Que a pergunta não era se a IA substituiria tarefas, mas o que sobrava de nós quando isso acontecesse. Os dados recentes confirmam: não é mais direção. É deslocamento. As coisas já se moveram. E a maioria das pessoas ainda está discutindo se deveriam se mover.

Os números que ninguém está lendo direito

Existe uma narrativa dominante sobre IA e trabalho que oscila entre dois extremos: o entusiasmo cego (“vai resolver tudo!”) e o pânico generalizado (“vai destruir todos os empregos!”). Os dados contam uma história mais complexa do que qualquer um dos lados admite.

O Anthropic Economic Index analisou o uso real de IA no mercado de trabalho e o resultado é revelador: 49% dos empregos existentes podem utilizar IA em pelo menos 25% das suas tarefas. Não em teoria. Na prática, com ferramentas disponíveis hoje.

Mas o detalhe que mais me chamou atenção foi outro: 52% do uso real da Claude é para augmentação, não automação. As pessoas estão usando IA para ampliar o que fazem, não para substituir o que fazem. A ferramenta funciona como um multiplicador, não como um substituto.

Os ganhos são reais e mensuráveis. Tarefas que exigem raciocínio de nível universitário estão sendo aceleradas em até 12 vezes. Tarefas de nível médio, em 9 vezes. O impacto macroeconômico potencial é significativo: estimativas apontam para um aumento de produtividade nos EUA que poderia adicionar entre 1.0 e 1.2 pontos percentuais ao crescimento anual. Para colocar em perspectiva, o crescimento médio de produtividade americano nas últimas duas décadas ficou em torno de 1.5% ao ano. Estamos falando de quase dobrar esse número.

Agora o outro lado. O setor de tecnologia acumulou cerca de 245.000 demissões em 2025. Nos EUA, aproximadamente 55.000 foram atribuídas diretamente à adoção de IA. E a ansiedade dos trabalhadores em relação à IA saltou de 28% em 2024 para projeções de 40%.

A dissonância é gritante. Os dados mostram que augmentação funciona, que IA amplifica mais do que substitui. Mas a narrativa pública está dominada pelo medo da substituição. E esse medo, como veremos, tem consequências reais e mensuráveis.

O paradoxo: empresas demitem por medo, não por resultado

Aqui está o que considero o dado mais importante dessa discussão: segundo a Harvard Business Review, 60% das organizações que reduziram quadro citando IA fizeram isso por antecipação. Não porque mediram resultados. Não porque a IA provou que poderia substituir aqueles profissionais. Fizeram por medo de ficar para trás.

Enquanto isso, apenas 2% das empresas realizaram demissões significativas ligadas à implementação real de IA. Dois por cento. A diferença entre esses números revela algo que vai além de gestão ruim. Revela uma dinâmica de mercado movida por narrativa, não por evidência.

O resultado dessa corrida precipitada está aparecendo. A Forrester reportou que 55% das empresas que fizeram cortes baseados em IA se arrependeram. A Gartner projeta que metade dessas empresas vai precisar recontratar até 2027. O ciclo é tão previsível que já deveria ter nome: demite pelo hype, recontrata pela realidade.

O caso mais emblemático é o da Klarna. A fintech sueca substituiu 700 funcionários por sistemas de IA, celebrou publicamente a decisão como um case de inovação, virou referência em painéis de conferência. E depois teve que recontratar porque a qualidade do atendimento despencou. O entusiasmo saiu na frente. A realidade veio atrás.

Já vi esse padrão antes. Na época das primeiras ondas de terceirização, empresas cortaram equipes inteiras para “economizar”, sem entender o que aquelas pessoas realmente faziam. O resultado era sempre o mesmo: perda de conhecimento tácito, queda de qualidade, recontratação custosa meses depois. Com IA, o roteiro está se repetindo. Muda a tecnologia, mas o erro gerencial é idêntico: reagir ao hype antes de entender a ferramenta.

E o mais preocupante: 44% dos gerentes de contratação já esperam fazer demissões ligadas à IA em 2026. O ciclo de decisões mal informadas está longe de acabar.

O que eu ganhei (e o que estou perdendo)

Vou ser direto. O ganho de produtividade que tive com IA no último ano é difícil de exagerar.

Uso Claude diariamente como parceiro de trabalho. Para escrever código, revisar arquitetura, explorar ideias, estruturar documentos, navegar entre contextos completamente diferentes no mesmo dia. Um estudo interno da Anthropic revelou que seus próprios engenheiros usam Claude em 60% do trabalho, com ganhos de produtividade de aproximadamente 50% ano a ano. Minha experiência pessoal confirma essa ordem de grandeza. Consigo fazer em uma tarde o que antes levava dias.

Mas o dado que mais me impressionou foi outro: 27% das tarefas assistidas por Claude eram tarefas que “não teriam sido feitas de outra forma.” Não é só fazer mais rápido. É fazer coisas que antes simplesmente não caberiam no dia. Projetos que ficariam na gaveta, experimentos que não valiam o investimento de tempo, análises que ninguém teria paciência para executar manualmente. A IA não está só acelerando o trabalho existente. Está expandindo o que é viável.

É libertador. E é, ao mesmo tempo, preocupante.

Porque existe um risco real nisso. É parecido com a calculadora. Quem se acostuma a fazer contas de cabeça desenvolve uma agilidade que vai além da matemática: é raciocínio rápido, estimativa, senso de proporção. Mas quando você passa a usar a calculadora para tudo, chega um ponto em que está fazendo 8 + 5 na máquina. Não porque não saiba somar. Porque o reflexo mudou.

Com IA, o padrão é o mesmo. Quando a ferramenta resolve problemas antes de você sequer terminar de formulá-los, algo muda no seu processo de pensamento. Você começa a delegar não só a execução, mas partes do raciocínio.

Tento ponderar isso no dia a dia. Uso IA pesadamente para tarefas complexas, para navegar contextos técnicos densos, para explorar caminhos que levariam horas sozinho. Passo boa parte do tempo lendo e criticando o que a IA produz, não aceitando cegamente. Mas também me forço a sair desse modo. A escrever sem assistência. A estruturar argumentos do zero. A exercitar o músculo que a ferramenta ameaça atrofiar.

Ainda assim, às vezes me pergunto se estou ficando pior em certas coisas enquanto fico melhor em outras. E talvez essa seja a pergunta mais honesta que alguém usando IA diariamente pode se fazer.

A adaptação que importa (e a que não importa)

Dario Amodei, CEO da Anthropic, disse recentemente que 50% dos empregos de nível iniciante em trabalho de escritório podem estar em risco nos próximos um a cinco anos. Usou a expressão “unusually painful disruption” e chamou este momento de “adolescência da tecnologia”: poderosa demais para ignorar, imprevisível demais para confiar cegamente.

A frase resume bem onde estamos. “Aprender a usar ChatGPT” não é adaptação. É o mínimo. A adaptação que realmente importa é outra: desenvolver julgamento, pensamento crítico e capacidade de definir problemas que valem a pena resolver. Saber operar a ferramenta é commodity. Saber o que pedir a ela é diferencial.

No Brasil, esse cenário ganha uma camada extra de complexidade. Os investimentos em IA já excedem R$13 bilhões, e 87% dos líderes empresariais planejam aumentá-los. Mas a adoção é profundamente desigual. Enquanto grandes empresas nos centros urbanos integram IA nos processos, a maioria do país ainda enfrenta desafios básicos de digitalização. As taxas de educação terciária são baixas, e a infraestrutura de qualificação não acompanha a velocidade da mudança.

Nos EUA, o debate é produtividade versus deslocamento. No Brasil, a barreira é mais fundamental: acesso, educação e digitalização desigual. Antes de discutir se a IA vai substituir empregos, precisamos discutir quem tem condições de usá-la. É uma conversa diferente, e não menos urgente.

Se eu pudesse resumir o que aprendi navegando essa transição, seria em quatro pontos:

  1. Use IA diariamente, mas preste atenção no que acontece com o seu pensamento. A ferramenta é poderosa. O risco é terceirizar o raciocínio junto com a execução.
  2. Pratique periodicamente sem IA para manter habilidades fundamentais. Da mesma forma que atletas treinam fundamentos, profissionais precisam manter a capacidade de pensar sem assistência.
  3. Foque no trabalho que IA não faz bem: julgamento sob ambiguidade, construção de relações, definição de problemas. Essas são as habilidades que ganham valor à medida que a IA absorve o resto.
  4. Desconfie tanto do hype quanto do pânico. Os dados contam uma história mais complexa do que qualquer manchete sugere. Busque os números antes de formar opinião.

A IA não vai esperar ninguém se adaptar. Ela já está no escritório, no terminal, no fluxo de trabalho de quem decidiu prestar atenção. A pergunta não é se ela vai mudar o trabalho. É se você está mudando junto.


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