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Escrevemos documentação que ninguém lê (e nunca foi tão útil)

Escrevemos documentação que ninguém lê (e nunca foi tão útil)

Documentação sempre apodreceu, e a gente culpou a disciplina do time. Eram outros dois problemas, e os dois caíram quase por acidente.

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Toda empresa que eu conheci tem um cemitério de documentação. Um Confluence com trezentas páginas que ninguém abre há dois anos. Um Notion que começou organizado e virou depósito. Uma pasta no Drive com quatro versões do mesmo documento e nenhuma marcada como a certa.

O diagnóstico é sempre o mesmo: falta disciplina. O time não escreve, não mantém, não lê. E a solução proposta também é sempre a mesma: um processo novo, um responsável nomeado, um ritual de revisão trimestral. Nunca funciona por muito tempo.

Eu passei anos aceitando esse diagnóstico. Hoje acho que ele estava errado desde o começo. Não era disciplina. Eram dois problemas diferentes, nenhum deles de caráter, e os dois caíram nos últimos anos quase sem a gente perceber.

Antes de continuar, um aviso: isso não é receita. Volto nisso no fim.

Por que documentação sempre apodreceu

O primeiro problema é que o leitor era ruim. E não estou falando mal de ninguém. Eu sou esse leitor.

Humano lê documentação por cima. Lê o pedaço que confirma o que ele já achava. Pula a seção que parece burocrática. Lê uma vez, no onboarding, e nunca mais volta. Quando bate a dúvida seis meses depois, pergunta no Slack em vez de procurar, porque perguntar é mais rápido do que garimpar.

Isso destrói a economia da coisa. Escrever documentação boa é caro: exige que alguém que entende o assunto pare de fazer outra coisa e passe horas transformando conhecimento tácito em texto preciso. E a taxa de consumo daquilo era perto de zero. Custo alto, uso baixo. Qualquer líder que já fez essa conta uma vez aprendeu a não priorizar documentação, e estava certo dentro daquela lógica.

O segundo problema é que o meio não tinha defesa nenhuma.

Regra de negócio sempre morou em Confluence, Notion, Google Docs, planilha. Pense no que falta nesses lugares: não tem branch, não tem diff que se leia, não tem revisão obrigatória antes de valer, não tem histórico legível, não tem ninguém aprovando. Qualquer pessoa edita qualquer coisa a qualquer hora e não fica rastro nenhum de quem mudou o quê nem por quê.

Agora compare com código. Código não apodrece do mesmo jeito. E não é porque dev é mais disciplinado que gente de produto. É porque código vive num lugar que tem pull request, revisão, histórico e blame. O ambiente força a qualidade que a pessoa sozinha não sustentaria.

Documentação nunca teve nada disso. A gente culpou as pessoas por um defeito do meio.

Trocamos o leitor

A primeira mudança é a que ninguém formula em voz alta, porque parece pequena e não é.

Nos times onde estou tentando esse caminho, o desenvolvedor não lê a documentação de regras de negócio. Quem lê é o agente de IA dele.

E o agente é o leitor que a documentação sempre mereceu e nunca teve. Ele lê com uma consistência que nenhum humano sustenta: toda vez, do zero, sem se lembrar da versão de três meses atrás. Não pula parágrafo por parecer chato, não acha que já sabe, não confunde com o projeto anterior, não tem preguiça na sexta à tarde.

Mas eu estaria vendendo fácil demais se dissesse que ele lê tudo. Contexto longo degrada, o miolo do documento recebe menos atenção que as pontas, e sistemas de recuperação entregam trechos, não o texto inteiro. O agente também lê por cima. A diferença é que ele não avisa. O humano que pulou uma seção pelo menos sabe que pulou. Isso não anula a troca, mas muda o que ela é: eu não ganhei um leitor perfeito, ganhei um leitor incansável. São coisas diferentes, e a segunda já é muita coisa.

Perceba o que isso faz com a conta. O custo de escrever continua o mesmo. O consumo foi de perto de zero para o teto prático: automático, em toda tarefa, sem depender da disposição de ninguém. A mesma documentação que era desperdício virou o insumo mais rentável da engenharia sem que uma única linha dela precisasse mudar. O que mudou foi quem está do outro lado.

E a leitura humana não sumiu. Ela subiu de lugar e se concentrou. Antes, dez pessoas liam mal um documento cada. Agora, poucas pessoas (produto e liderança do projeto) leem bem, uma vez, no momento de escrever e aprovar. A leitura delas é replicada com fidelidade em todas as frentes de trabalho, sem se degradar no caminho.

Trocamos o meio

A segunda mudança é mais simples de descrever e igualmente decisiva: as regras de negócio saíram do editor de texto e foram para o repositório.

Cada mudança de regra abre um pull request. Alguém revisa. Alguém aprova. Fica registrado quem propôs, quem aceitou e quando. E porque é um repositório, cada regra pode carregar de onde veio: a decisão que a originou, o que foi considerado e descartado no caminho.

Isso resolve o problema que nenhum ritual de revisão trimestral resolveu: o conhecimento de negócio ganhou o mesmo sistema de rastreamento que o código sempre teve.

Faço questão de não esticar a analogia, porque ela é sedutora e engana. O que protege o código não é o ritual do pull request. É compilador, teste, tipo e retorno de produção. Prosa não tem nenhum dos quatro, e revisão de texto vira carimbo mais rápido do que revisão de código. O que eu ganhei foi histórico, autoria e rastreabilidade, que é muito e não existia antes. Verificação eu não ganhei.

Um efeito colateral que eu não previa: dá para fazer blame numa regra de negócio. Você consegue apontar o momento exato em que a empresa mudou de entendimento sobre o próprio domínio, quem propôs a mudança e o que se sabia na época. Seis meses depois, quando alguém pergunta “por que isso funciona assim?”, a resposta não depende da memória de quem estava na sala.

Nada disso é invenção minha, e vale dizer. Registrar decisão de arquitetura em repositório, tratar documentação como código e escrever especificação em formato executável são práticas com mais de uma década de estrada. O que mudou não foi a técnica de guardar. Foi quem passou a ler o que a gente guarda.

A revisão mais cara deixou de ser a do código

Aqui está a consequência que mais mudou a minha cabeça como líder.

Uma linha de código errada quebra uma funcionalidade. Alguém abre um chamado, alguém corrige, acabou.

Uma regra errada quebra a classe inteira de problemas. Porque a partir do momento em que ela é aprovada, todo agente, em toda frente de trabalho, vai lê-la e reproduzi-la com fidelidade perfeita. O agente não erra ao ler uma regra ruim. Ele executa a regra ruim com precisão, em cinco lugares ao mesmo tempo, e o resultado sai com toda a aparência de estar certo.

O ponto de controle de qualidade mudou de endereço. A revisão mais cara da minha engenharia hoje não é a do diff de código. É a que acontece antes, quando alguém aprova uma regra.

Isso também mudou o que a função de produto é na prática. Escrever um chamado para um humano interpretar é uma coisa. Escrever o substrato que vai governar como o sistema inteiro se comporta é outra bem diferente: muito mais alavancagem e muito mais raio de explosão.

E tem um efeito bonito nisso: a especificação não morreu, ela mudou de frequência. O documento de vinte páginas aprovado uma vez antes do projeto começar era especificação como evento, e era ruim justamente por isso, porque errava quase tudo e ninguém voltava para corrigir. O que existe agora é especificação como fluxo: mudanças pequenas, frequentes, cada uma com revisor. Mesma função, cadência oposta.

O protótipo continua sendo o plano (mas agora começa sabendo)

Uma coisa que eu aprendi cedo e nunca desaprendi: o melhor plano é um protótipo. Nenhuma especificação escrita antes do produto existir jamais descreveu o produto que acabou saindo. Você só descobre o que a coisa é construindo uma versão porca dela.

Isso continua valendo. O que mudou é de onde o protótipo parte.

Um exemplo inventado, para não usar nada do meu trabalho. Imagine um marketplace com uma regra de devolução fora do prazo. Antes ela era uma só: fora do prazo, o vendedor decide se aceita. Depois de uma discussão, virou duas:

  • Se o produto é do estoque do próprio vendedor, ele pode abrir exceção.
  • Se veio do catálogo compartilhado da plataforma, não existe exceção local, e a opção nem aparece na tela.

Repare no que essa regra realmente codifica. Não é uma restrição técnica. É um fato sobre onde mora a autoridade: você manda no que é seu, e não manda no que é da rede. Isso não está escrito em lugar nenhum do código, porque não é uma propriedade do código. É uma decisão organizacional.

Um agente que constrói o protótipo sem essa regra vai acertar um dos dois caminhos e errar o outro. Pior: vai errar de um jeito plausível, com tela bonita e fluxo coerente, e a pessoa que revisar não vai ter motivo para desconfiar.

O mesmo protótipo, com as regras do domínio carregadas, sai outra coisa. Mesma janela de tempo, mesmo esforço. Sem contexto é um chute caro. Com contexto é uma proposta.

É isso que dissolve o repasse de trabalho de uma pessoa para outra. Se a linha guia está escrita e é legível por máquina, eu não preciso de alguém traduzindo negócio para o desenvolvedor. Eu abro frentes de trabalho e cada pessoa avança pela mesma referência. Ninguém entrega nada para ninguém.

A parte que quase ninguém escreve

Se eu pudesse levar uma única coisa deste texto para outra empresa, seria esta.

Toda documentação corporativa é um monumento à certeza. Ela registra o que já se sabe e finge que o resto não existe. Só que a parte interessante de qualquer domínio complexo é justamente a que ninguém decidiu ainda: a ambiguidade que aparece na terceira reunião, some na quarta e volta a morder seis meses depois na forma de um bug que ninguém entende.

O que passou a fazer mais diferença nos meus times não foi documentar o que está decidido. Foi manter um registro explícito do que não está: a decisão em aberto, o que depende dela, e quem deve a resposta.

Isso muda o comportamento do agente de um jeito que eu não esperava. Um agente que encontra “isto ainda não foi decidido, o dono é fulano” para e pergunta. Um agente que não encontra nada preenche a lacuna sozinho, com confiança, e segue. O superpoder não é o agente saber as regras. É ele saber onde as regras acabam.

E tem um ganho que é só de gestão, sem nada a ver com IA: quando o que está em aberto vira uma lista com dono, a incerteza para de circular como sensação difusa no time e vira trabalho endereçável. Dá para ver, no histórico, as perguntas sendo retiradas da lista uma a uma. É a organização convergindo sobre o próprio domínio, com data e responsável.

As pontas que eu ainda não resolvi

Não vou terminar isso fingindo que está fechado.

A primeira é a deterioração. Nada nesse sistema mata regra velha. A regra que estava certa em janeiro e ficou errada em julho porque o negócio mudou não tem quem a derrube. Erro de escrita a gente pega na aprovação, porque tem alguém revisando, é para isso que serve. Deterioração não tem alarme. E deterioração é pior que erro, porque a regra continua ali com toda a autoridade de algo que foi revisado e aprovado, sendo lida com fidelidade perfeita por todo agente, muito tempo depois de ter deixado de ser verdade.

O instrumento para detectar isso existe: o repositório sabe exatamente quando cada regra foi tocada pela última vez, e regra parada há muito tempo num domínio que mudou é um sinal medível. O que não existe ainda é a vigilância. Ninguém é acordado por isso.

Se esse problema ainda não me mordeu, é por tempo de operação, não porque está resolvido.

A segunda é o que acontece com quem não lê mais. Se o desenvolvedor não precisa ler as regras de negócio, de onde vem o julgamento de domínio dele daqui a três anos? Boa parte do que eu sei sobre educação eu aprendi lendo coisa chata que não era da minha função. Concentrar a leitura em poucas pessoas resolve a fidelidade e cria um gargalo: as mesmas cabeças aprovando tudo, e um time que executa muito bem um domínio que não conhece. Ainda não sei se essa troca se paga.

A terceira é de segurança, e é a que menos aparece nessa conversa. Um repositório de regras que agentes leem e executam é, na prática, um motor de políticas sem nenhuma das garantias de um motor de políticas. É superfície de injeção, porque texto que entra vira comportamento, e é uma pergunta de auditoria que alguém de risco vai fazer antes de mim. Em setor regulado, e educação é um deles, essa pergunta tem resposta obrigatória. Eu ainda não tenho a minha.

O que eu levo disso

Eu não estou prescrevendo nada aqui. Hoje eu tenho times trabalhando em formatos diferentes, de propósito. O chão está se movendo rápido demais para eu padronizar a engenharia inteira em cima de uma hipótese que ainda não terminei de validar. E quem afirma com muita convicção que descobriu o jeito certo de trabalhar com IA em 2026 está, na melhor das hipóteses, sendo otimista.

O que eu tenho é uma aposta que está pagando até aqui, e uma leitura do porquê.

E “pagando” aqui é impressão, não medição. Não montei grupo de controle, não tenho número limpo de antes e depois, e existe pesquisa séria mostrando que a percepção de ganho com IA costuma ser bem maior que o ganho real. Em um estudo controlado de 2025, desenvolvedores experientes ficaram mais lentos com as ferramentas enquanto juravam ter ficado mais rápidos. Fica registrado que eu posso ser exatamente o sujeito desse viés.

Documentação nunca foi uma má ideia. Ela era uma boa ideia com dois defeitos estruturais: escrevíamos para um leitor que não lia, e guardávamos num lugar sem nenhuma defesa. Os dois defeitos caíram: um porque o leitor mudou, outro porque a gente finalmente mudou o meio. O trabalho de escrever continua exatamente tão caro quanto era. O que mudou foi o retorno.

E se eu estiver certo sobre isso, a habilidade que fica escassa não é escrever código. É conseguir olhar para uma operação que você conhece bem e transformar o que “todo mundo sabe” em texto preciso o suficiente para uma máquina agir em cima. Isso continua sendo trabalho humano. E acabou de ficar muito mais valioso.


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