Fazer a mesma coisa com IA não é transformação
Continuando o Reshuffle: o capítulo 3 mostra que adotar IA sem repensar como o sistema funciona é otimizar algo que talvez nem devesse existir mais.
Há algumas semanas, escrevi sobre como o Reshuffle, de Sangeet Paul Choudary, mudou minha perspectiva sobre IA. A tese central dos primeiros capítulos era que o impacto transformador da IA não vem de automatizar tarefas, mas de coordenar sistemas fragmentados. Não é fazer mais rápido. É conectar o que estava desconectado.
Continuei a leitura. E o capítulo 3 aprofundou algo que eu vejo acontecer no dia a dia de quase toda empresa: a tentação de encaixar a IA nas atividades que já existem e chamar isso de inovação.
A armadilha da otimização
A maioria das empresas que conheço está usando IA da mesma forma: pegando processos existentes e acelerando. O relatório que levava três horas agora leva vinte minutos. A triagem de e-mails ficou mais rápida. O atendimento ganhou um chatbot.
São ganhos reais. Mas Choudary faz uma provocação importante: se você adota IA sem mudar como a coordenação funciona, você está construindo alavancagem para o provedor da ferramenta, não para você.
Releia isso. Se a única coisa que muda é a velocidade, a vantagem não é sua. É de quem vendeu a ferramenta. Porque qualquer concorrente pode comprar a mesma ferramenta e alcançar a mesma velocidade. A diferença está em quem usa a tecnologia para repensar como as partes se conectam.
Eficiência de tarefas vs. reconfiguração do sistema
Choudary separa dois tipos de ganho com IA. O primeiro é eficiência de tarefas: fazer o que já fazia, só que mais rápido. O segundo é reconfiguração do sistema: mudar como decisões fluem, como pessoas se coordenam, como o valor é criado.
Os ganhos mais significativos não vêm de execução mais rápida. Vêm de mudar como decisões circulam pelo sistema e como novos pontos de decisão criam novos centros de relevância.
Para quem lidera, isso muda completamente a pergunta. Não é “onde posso colocar IA?” É “que atividades ainda fazem sentido da forma como estão desenhadas?”
O exemplo que me fez pensar em educação
Vou dar um exemplo que me veio à cabeça lendo o capítulo 3, pensando no setor de educação (que é um contexto que conheço de perto).
Uma escola pode usar IA para corrigir provas mais rápido. Isso é eficiência de tarefas. O professor ganha tempo. A nota sai antes. Todo mundo fica contente.
Mas a pergunta de reconfiguração é outra: se o aluno tem acesso à mesma IA que o professor, o que significa “avaliar”? A prova tradicional testa o quê, exatamente, quando o aluno pode pedir para a IA resolver? O formato inteiro da avaliação precisa ser repensado, não apenas acelerado.
A escola que só usa IA para otimizar o processo existente está fazendo a mesma coisa mais rápido. A escola que repensa o que “avaliar” significa num mundo com IA está reconfigurando o sistema. A segunda cria uma vantagem que a primeira nunca vai alcançar, por mais rápido que corrija provas.
Coordenação não é só para gigantes
Um ponto importante do capítulo 3: a IA permite que empresas menores alcancem níveis de coordenação que antes exigiam escala enorme. Não é mais necessário ter o poder de mercado tradicional para orquestrar um ecossistema.
Isso é relevante para quem lidera operações de qualquer porte. Um negócio pequeno que usa IA para coordenar fornecedores, parceiros e clientes de uma forma nova pode criar uma posição competitiva que não depende de tamanho. Depende de como as partes se conectam.
Choudary coloca assim: quanto mais essencial o seu sistema se torna para como os outros se coordenam, menos substituível você é. Não é sobre ser o maior. É sobre ser o mais necessário dentro de uma rede de relações.
A pergunta que fica
Depois de ler esse capítulo, comecei a olhar para meu próprio trabalho com outros olhos. Quantas das coisas que faço com IA são realmente reconfiguração? E quantas são apenas a versão acelerada do que eu já fazia?
Sendo honesto: a maioria ainda é otimização. E não tem nada de errado com isso, os ganhos de produtividade são reais. Mas se eu parar aí, estou capturando só a parte mais óbvia do que a tecnologia oferece.
A pergunta para quem lidera não é “a empresa já usa IA?”. É “as atividades que a empresa faz ainda são as atividades certas?”
Porque se as estruturas mudaram e a gente continua fazendo as mesmas coisas (só que mais rápido), não é transformação. É aceleração do que já existia. E num mundo onde o sistema inteiro está se reconfigurando, otimizar o jogo antigo pode ser a forma mais elegante de ficar para trás.
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