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Construir ficou barato. Ser escolhido ficou caro.

Construir ficou barato. Ser escolhido ficou caro.

Adam Smith dividiu o preço em salário, lucro e renda da terra. A promessa da IA é que sobrou só lucro. Passei um tempo achando isso e hoje acho que a conta está errada nos dois primeiros termos.

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Durante oito anos eu vivi dentro de uma conta muito simples. A Ctrl+Play tinha unidades espalhadas pelo Brasil e, quando um franqueado me mandava o resultado do mês, a conversa era sempre sobre as mesmas três linhas: a folha, o aluguel do ponto e o que sobrava depois das duas.

Adam Smith escreveu essa mesma conta em 1776. Em A Riqueza das Nações, ele decompõe o preço de qualquer mercadoria em três parcelas: salário, para quem trabalha; lucro, para quem arriscou capital; e renda, para quem é dono de um recurso escasso, que na época era a terra.

Um parêntese honesto, porque essa é justamente a parte de Smith que não sobreviveu intacta: Ricardo e, depois, Marx atacaram a ideia de que dá para resolver o preço somando rendas. Preço se forma na margem, entre oferta e demanda, e não pela soma dos custos. Uso a decomposição aqui do jeito que ela continua funcionando bem: não como teoria de formação de preço, mas como mapa de para onde vai cada real de receita.

Por quase toda a história econômica, produzir mais significou gastar mais em todas as três. Mais alunos exigiam mais professores, mais salas, mais metros quadrados em um ponto bem localizado. Crescer carregava junto uma expansão quase proporcional dos custos.

A IA parece romper isso. E é aí que começa uma conta que eu mesmo já fiz com entusiasmo antes de olhar melhor para ela.

A conta que parece boa demais

Imagine um produto de software construído por uma pessoa só. A IA ajuda a escrever o código, montar a interface, produzir o conteúdo, responder cliente, analisar métrica, rodar campanha. A distribuição é digital. Depois de pronto, atender o próximo cliente custa quase nada.

À primeira vista, dois dos três termos de Smith evaporaram. Não tem salário, porque agente não recebe. Não tem renda da terra, porque o negócio não ocupa espaço físico nenhum. Logo, quase todo o preço viraria lucro.

Eu escuto alguma versão disso em quase toda conversa sobre IA hoje. É sedutor porque a primeira metade é verdadeira: dá mesmo para fazer com duas pessoas o que exigia trinta.

Só que a conta está errada nos dois lugares. E o erro é o mesmo nos dois: a parcela não desapareceu. Ela mudou de endereço.

O salário virou capital (e voltou como custo variável)

A IA não eliminou o trabalho. Ela transformou trabalho em capital.

O esforço que antes você comprava via folha de pagamento agora está incorporado em modelos, servidores e automações. Em vez de contratar dezenas de pessoas, você aluga capacidade produtiva acumulada: sistemas treinados em cima de uma quantidade absurda de conhecimento humano.

E aqui cabe uma ressalva que costuma ser pulada. O salário não evaporou: ele foi pago rio acima, e nem sempre bem. Tem trabalho humano de anotação e avaliação sustentando esses modelos, muito dele precarizado, e tem a parte do material de treino que ninguém pagou e que está sendo discutida em tribunal neste momento. “A IA não recebe salário” só é verdade se você olhar exclusivamente para a sua própria folha.

E tem um detalhe que só aparece quando chega a fatura. O SaaS clássico tinha custo marginal perto de zero: o milésimo cliente custava praticamente o mesmo que o centésimo. Produto com IA no meio não tem essa propriedade. Cada requisição custa. O custo voltou a ser variável e proporcional ao uso.

Isso mexe na estrutura do negócio de um jeito que a planilha de 2020 não previa. Um exemplo inventado, para não usar nada do meu trabalho: imagine uma ferramenta que resolve chamados de suporte e cobra por usuário/mês. O cliente que quase não usa paga a mesma coisa que o cliente que joga dez mil chamados por mês na sua fila. Na lógica antiga, o usuário pesado era o cliente fiel. Na lógica nova, ele pode ser exatamente onde você perde dinheiro.

A folha não sumiu. Ela virou uma linha de infraestrutura, e essa linha cresce justamente quando o produto dá certo.

A terra não sumiu, mudou de endereço

Na economia industrial, a renda ia para o dono do solo, da mina, do imóvel. Eu pagava por metro quadrado bem localizado, e quanto melhor a localização, mais o dono do ponto capturava do resultado da operação.

Na economia da IA, a renda vai para os donos da infraestrutura digital: provedores de nuvem, fabricantes de chip, plataformas de distribuição, sistemas operacionais, marketplaces, redes sociais e as empresas que controlam os grandes modelos.

A nova terra pode ser uma GPU, uma API, uma base de dados exclusiva, uma posição privilegiada no resultado de busca ou o acesso a uma audiência que já existe. Renda é o que se cobra pelo acesso a algo escasso que o outro não consegue produzir sozinho. Isso continua valendo. Só trocou de dono.

Só que vale separar duas coisas que costumam cair no mesmo balde, porque elas se comportam de maneira oposta. GPU e nuvem são capital reproduzível: dá para fabricar mais, tem concorrente entrando e o preço por unidade de inteligência vem caindo rápido, o contrário de um proprietário aumentando o aluguel. Aquilo é quase-renda, um pedágio de liderança tecnológica que a concorrência tende a corroer.

A renda que se parece mesmo com terra é a de portaria: a loja de aplicativos que fica com sua comissão, o resultado de busca, o feed, o acesso a uma audiência que já existe. Essa tem a única oferta genuinamente fixa da história toda, porque a atenção humana não cresce só porque a produção cresceu. É ali que o pedágio sobe em vez de cair.

Então cada real que entra naquele SaaS imaginário não se reparte em salário, lucro e renda. Ele se reparte mais ou menos assim:

computação + capital acumulado + renda de plataforma + distribuição + risco + lucro

Repare que o lucro é o último da fila. Ele é o que sobra, e o que sobra depende inteiramente de quanto os outros conseguem cobrar antes dele.

O que barateia para você barateia para o seu concorrente

Aqui está o ponto que muda a estratégia.

Já escrevi aqui, lendo o Reshuffle, que se a única coisa que muda é a velocidade, a vantagem não é sua, e sim de quem vendeu a ferramenta. A versão econômica desse argumento é mais dura ainda: a IA derruba o seu custo de construir, mas derruba o custo de todo mundo, ao mesmo tempo, com a mesma ferramenta.

Se qualquer pessoa monta um produto em poucos dias, construir deixa de ser barreira de entrada. Código vira abundante. Interface vira abundante. Conteúdo vira abundante. Até certas formas de conhecimento viram abundantes. E o que é abundante não sustenta preço.

Vale ser exato sobre o que ficou barato, porque já escrevi aqui quase o contrário disso. O que a IA barateou foi construir a primeira versão. Colocar em produção continua caro e continua demorando: integração, escala, governança, tudo que não aparece na demo. As duas coisas convivem, e é essa diferença que explica para onde a barreira andou: ela saiu de construir e foi morar nos lugares que a demo não mostra.

Também não significa que software passou a valer menos, e é aqui que muita gente exagera na conclusão. Insumo barato costuma aumentar o valor dos complementos dele, e produção mais barata historicamente expandiu mercado em vez de encolher. Vai existir muito mais software no mundo, não menos. O que muda não é o tamanho do bolo. É quem consegue ficar com pedaço dele.

Por isso desconfio de margem extraordinária como sinal de vantagem. O padrão provável é: alguém encontra uma brecha, lança com estrutura de custo mínima, tem seis meses de margem espetacular, e então aparecem trinta produtos parecidos, o preço cai e o que parecia vantagem tecnológica vira commodity. Isso não é a IA quebrando a economia. É a economia funcionando exatamente como Smith descreveu: competição comprimindo lucro até a taxa ordinária, só que muito mais rápido do que antes.

Nada disso é novidade teórica, aliás. David Teece descreveu o mecanismo em 1986: quando a inovação é fácil de imitar, o lucro não fica com quem inventou, fica com quem controla os ativos complementares: distribuição, marca, relacionamento, serviço. A IA não criou essa regra. Ela só encurtou brutalmente o prazo em que ela se aplica.

O que a IA aumentou radicalmente foi a capacidade de produzir. Ela não aumentou na mesma proporção a atenção das pessoas, a confiança do comprador nem a disposição de uma empresa em mudar o próprio processo. É nesses três lugares que a escassez foi morar.

Eu aprendi isso na versão analógica

A parte engraçada é que essa lição não tem nada de nova para quem já tocou um negócio físico.

Qualquer concorrente podia copiar a grade de cursos da Ctrl+Play. Vários copiaram. Não era difícil, não custava caro e não dava para impedir. O que não se copiava em seis meses era outra coisa: a marca em que uma mãe confia para deixar o filho três horas por semana, uma rede de franqueados que já sabia operar, o relacionamento com as escolas, o repertório de mil erros que a gente já tinha cometido.

Passei um tempo achando que o produto era o ativo. O produto era a parte fácil.

O software está descobrindo isso agora, na velocidade da IA. É a mesma lição, com outro figurino.

Um salto para 2031

Vamos supor que estamos em 2031.

Uma pessoa que entende bem de um mercado monta em poucas semanas o equivalente ao que seria uma startup inteira em 2026. Os agentes dela pesquisam o setor, conversam com clientes, constroem o produto, testam versões, produzem campanha e atendem boa parte do suporte.

Existem milhões de empresinhas de software. Muitas são tocadas por uma ou duas pessoas e faturam o que antes exigia um time completo. E a maioria delas ganha pouco, porque para quase todo software existem centenas de alternativas competentes. Criar ficou barato. Ser escolhido ficou caro.

As empresas valiosas desse cenário não são as que têm o melhor código. São as que controlam alguma forma de escassez: uma marca em que se confia, uma comunidade difícil de reproduzir, dados proprietários acumulados ao longo de anos, integração profunda na operação do cliente, acesso a canal de distribuição, conhecimento específico de um setor.

E o software cobrado por assento perde espaço para quem vende resultado. O cliente não paga licença de sistema de recrutamento, paga por candidato qualificado. Não compra ferramenta de cobrança, compra redução de inadimplência. Faz sentido: quando o software passa a executar o trabalho, e não apenas ajudar o trabalhador, cobrar pela ferramenta vira uma forma estranha de cobrar.

Só que tem um preço embutido nisso que quase ninguém menciona. Vender resultado é assumir risco. Quem cobra por inadimplência reduzida responde quando ela sobe. E essa é uma escassez de um tipo bem específico: não é difícil de copiar por ser tecnicamente complexa, é difícil porque exige alguém disposto a assinar embaixo. Isso não escala com mais GPU.

Vale lembrar que cobrar por resultado não é ideia nova, e o histórico dela é ruim. Contrato de risco compartilhado, terceirização com meta de desempenho e mídia por performance existem há décadas, e travam quase sempre nos mesmos dois lugares: atribuição, porque ninguém concorda sobre de quem foi o mérito, e compras, porque o jurídico do cliente não sabe assinar um contrato desses. O que pode ser diferente agora é que o fornecedor passa a controlar a execução inteira, e não só a ferramenta. Se ele faz o trabalho, fica mais difícil discutir de quem foi o resultado.

Nesse mundo, a divisão clássica entre quem trabalha e quem é dono do capital fica embaçada. Uma pessoa com um punhado de agentes é, ao mesmo tempo, trabalhador, gestor e dono dos meios de produção. Isso democratiza o empreendedorismo de um jeito genuíno, e concentra riqueza de um jeito igualmente genuíno, porque os donos dos modelos, dos chips e dos canais cobram um pedágio sobre milhões de negócios construídos em cima deles.

Nunca foi tão fácil montar uma empresa. E nunca foi tão difícil construir uma vantagem que dure.

O que eu levo disso

Smith reconheceria essa dinâmica sem esforço. A tecnologia troca os instrumentos, não as forças: competição comprime lucro, capital procura retorno, dono de recurso escasso cobra renda.

O erro que eu pego em mim mesmo é outro, e é de executivo: comemorar a linha de custo. Quantas horas a IA devolveu, quanto o time entregou a mais, quanto deixamos de gastar. É a métrica mais fácil de apurar e a mais enganosa, porque meu concorrente vai apurar a mesma economia em pouco tempo, com a mesma ferramenta, e aí nenhum dos dois saiu do lugar.

A pergunta melhor é chata e mais difícil de responder: o que ficou mais escasso no meu mercado, e eu tenho alguma coisa disso?

No meu caso, a resposta mais concreta até agora tem sido contexto. Escrevi há pouco sobre documentação que ninguém lê e nunca foi tão útil: conhecimento de operação transformado em texto preciso o suficiente para uma máquina agir em cima. Não é glamouroso, não aparece em demo e demora para render. Mas é a única parte desse processo que o meu concorrente não consegue baixar pronta de lugar nenhum, porque ela é feita do que a minha operação aprendeu e a dele não.

Pode ser que eu esteja errado sobre o prazo. Nesse assunto, quase todo mundo está. O que me parece sólido é a direção.

No passado, ser dono da terra era ser dono do lugar onde a riqueza seria produzida. Nos próximos anos, a riqueza deve ficar com quem for dono da confiança, dos dados, da distribuição e do contexto em que a IA vai ser aplicada.


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