A transição de fundador para executivo: o que mudou na minha cabeça
A sutil diferença entre querer fazer e ter que fazer, e por que levei seis meses para acomodar isso.
Em 2015, fundei a Ctrl+Play com a missão de democratizar o ensino de tecnologia para crianças e adolescentes. Oito anos depois, após a aquisição pelo Grupo CNA, me vi em uma posição completamente diferente: de fundador de uma startup para executivo de uma das maiores redes de ensino do Brasil.
Essa transição não foi apenas uma mudança de cargo. Foi uma reprogramação mental que levou meses.
A chave que muda tudo
A mudança mais profunda não foi no que eu fazia, mas na razão pela qual eu fazia.
Como fundador, eu acordava todo dia fazendo exatamente o que eu queria fazer. Cada reunião, cada decisão, cada projeto. Eu tinha escolhido aquilo. A empresa era uma extensão das minhas escolhas.
Como executivo, passei a fazer muitas das mesmas coisas, da forma que eu mesmo havia construído. Mas agora era porque eu tinha que fazer.
Parece sutil. Levei seis meses para acomodar essa diferença na minha cabeça.
Era estranho. O trabalho era praticamente o mesmo. A equipe era a mesma. Os desafios eram familiares. Mas essa pequena mudança, do querer para o ter que, fazia uma diferença enorme no meu dia a dia.
O tempo deixou de ser meu
Na Ctrl+Play, eu já sabia orquestrar. Tinha minhas rotinas com o time, cadências bem definidas, e tudo fluía. Não era um fundador caótico. Eu havia construído sistemas e processos que funcionavam.
A diferença veio de outro lugar: como executivo, passei a seguir uma agenda que está acima da minha.
Antes, eu definia o ritmo. Agora, muitas vezes preciso me adaptar a um ritmo que não escolhi. Uma reunião estratégica do grupo entra na agenda e minha cadência com o time muda. Uma prioridade corporativa surge e meus planos se ajustam.
Para quem adota rotina como forma de simplificar a vida (e eu sou assim), isso foi um desafio enorme. Aprendi que a consistência que eu buscava precisava existir em outro nível: não na agenda em si, mas na forma como eu me adapto quando ela muda.
O que eu trouxe da mentalidade de fundador
Nem tudo precisou mudar. Algumas coisas que aprendi empreendendo se tornaram diferenciais.
Pensar pela empresa, sempre. A frase “não é minha área” nem passa pela minha cabeça. Graças ao empreendedorismo, aprendi a olhar para o todo. Não importa quem é o dono. Precisamos prezar pela organização maior que nos mantém. Esse instinto de cuidar do coletivo, e não só da sua caixa, ajuda a quebrar silos e encontrar soluções melhores.
Jogar o jogo longo. Penso sempre em ações definitivas que ajudem no longo prazo, para colher o efeito de compounding. Claro, sem deixar de atender necessidades de curto e médio prazo. Equilibrar esses horizontes é talvez o maior desafio da gestão.
Conforto com ambiguidade. Grandes organizações tendem a buscar processos para tudo. Mas inovação acontece no espaço cinza, onde as regras ainda não existem. Saber navegar essa ambiguidade continua sendo valioso.
O que tive que desaprender
Minha voz como palavra final. Eu sempre provoquei meu time a ser crítico e me questionar. Nunca gostei de colaborador “sim senhor”. Prefiro os questionadores que trazem pontos relevantes. Mesmo assim, querendo ou não, eu era o dono. E minha voz acabava prevalecendo em alguns momentos, mesmo quando eu não queria que fosse assim. Agora é diferente. Minha opinião é uma entre várias na mesa. Isso exige um ajuste. Não de ego, mas de postura. Contribuir sem ter a última palavra.
Impaciência com política. Eu via política organizacional como perda de tempo. Entendi que, em sistemas complexos, alinhamento é trabalho, não overhead. As conversas de corredor, os check-ins informais, as negociações sutis: tudo isso faz parte do trabalho real.
A solidão familiar. Como fundador, eu estava sozinho no topo de algo que construí. Como executivo, estou no meio de algo muito maior. A primeira solidão era de responsabilidade. A segunda é de influência. Você precisa liderar sem controle total, convencer sem autoridade absoluta.
O que ainda estou aprendendo
Essa transição não tem linha de chegada. Ainda erro. Ainda caio em padrões antigos. Ainda preciso me policiar.
Mas o que mudou foi a consciência. Sei que o jogo é diferente, que as regras são outras, que o que me trouxe até aqui não é o que vai me levar adiante.
E talvez essa seja a maior lição: a capacidade de se adaptar, não só uma vez, mas continuamente, é mais importante do que qualquer habilidade específica. O fundador que virou executivo precisa, de certa forma, fundar uma nova versão de si mesmo.
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